segunda-feira, 23 de março de 2009

Bolg Joint: O aproveitamento dos espaços públicos

Não tenho muita coisa a dizer em relação a este importante tema proposto pelo colega Ronny Moreira.
Pertencemos a um País onde ainda não há muita sensibilidade em relação ao que é bem público.
Escolas destruídas, portas arrombadas, paragens de autocarros destruídas, materiais diversos utilizados em benefício privado, são práticas amiúdes na nossa sociedade.
Precisamos trabalhar no sentido de incutir nas pessoas as boas práticas relacionadas com a utilização dos bens públicos tão necessários ao nosso progresso. É o tão almejado desenvolvimento do nosso Capital Social, tão ou mais importante que o Capital Físico ou Capital Humano para o nosso crescimento e desenvolvimento.
Os espaços públicos, como escolas, centros juvenis, cinemas entre outros devem ser protegidos e utilizados a bem da comunidade.
Cabo-Verde como um País pobre que faz um grande esforço na mobilização de recursos para a criação dessas infraestruturas que são indispensáveis ao seu desenvolvimento não se pode dar ao luxo de ver esses mesmos espaços a degradarem-se ou a serem degradados na mesma velocidade com que conhecem a luz do dia.
O associativismo juvenil pode desempenhar um papel fundamental na promoção de actividades que permitam um aproveitamento adequado desses espaços. Mas também tem um papel importante na sua preservação através da criação de programas de recuperação de espaços públicos.
As associações juvenis podem ser um importante parceiro dos poderes públicos na prossecução de objectivos de melhor gestão, de recuperação e de preservação dos espaços públicos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Ainda a propósito da visita de José Sócrates a Cabo-Verde


Nos últimos dias muito se tem falado sobre a famosa viagem do Primeiro Ministro de Portugal, José Sócrates, a Cabo-Verde, com uma comitiva de 120 pessoas, entre Ministros, Secretários de Estado, Empresários entre outros.


Nunca na minha vida ouvi tantas asneiras da parte de alguns analistas portugueses quando analisavam a visita de Sócrates a Cabo-Verde.

E só para citar um exemplo num debate televisivo vi um jovem ( coitado, não sabia o que dizia) a dizer que não percebia o que é que Sócrates ia fazer a Cabo-Verde para no fim rematar que ele foi lá distribuir os computadores magalhães enfermos de defeitos para acrescentar mais problemas aos muitos que Cabo-Verde já tinha como a malária, a ébola e as dificuldades do quotidiano.

Outros disseram que Sócrates fortemente contestado em Portugal foi lá para receber carinho do Povo cabo-verdiano para se sentir grande no meio de gente pobre e pequeno.

Esse jovem não imagina nem de longe e nem de perto que os indicadores de saúde em Cabo-Verde são melhores do que alguns países europeus e que a malária e a ébola não fazem parte do nosso vocabulário. De resto, não vale a pena tecer mais comentários de tão pobres que são essas opiniões.

Do lado de Cabo-Verde doeu-me ver que muitas pessoas, entre políticos, bloggers, analistas, preferiram pôr enfase em questões menores, outras mesquinhas até, e não em questões essenciais . Muitos preferiram falar dos defeitos do Magalhães, da propaganda política, do passeio, das lagostas...

Uma coisa ninguém pode negar: essa visita foi um sucesso a todos os níveis. Pareceu-me ser muito bem organizada pelas autoridades cabo-verdianas, com todos os pormenores para que nada falhasse. Acho que desde de 1975 nunca nenhum Chefe de Estado ou de Governo fez uma visita oficial a Cabo-Verde que se traduziu em tantos resultados práticos como essa visita do Chefe de Governo de Portugal.

Muitos disseram que não se justificava uma tão grande comitiva para Cabo-Verde dada a relativa diminuta importância económica do arquipélago. Cabo-Verde é uma pequena economia aberta com aproximadamente 530 mil habitantes (cerca de 0,17% da população da Euro Àrea) e com um Produto Interno Bruto (PIB) que representa apenas 0,01% do PIB da Euro Àrea.

Em Portugal vivem milhares de cabo-verdianos que dão a sua contribuição para o desenvolvimento desse País. Em Portugal estudam milhares de estudantes cabo-verdianos. Em Cabo-Verde há importantes investimentos de Portugueses principalmente no sector financeiro.

Cabo-Verde não tem o petróleo de Angola e da Venezuela, nem ouro e nem diamante. Mas somos um País com estabilidade política, social e económica, a nossa democracia é uma referência no mundo, temos grandes potencialidades a nível do turismo, e uma posição geo-estratégica importante.

Cabo-Verde tem sido um bom aluno. Sempre geriu bem os recursos que foram postos à sua disposição. Num contexto de total ausência de recursos naturais o País apostou fortemente na educação, na qualificação e valorização dos recursos humanos e fez um bom percurso ao longo desses anos de independência. Cabo-Verde deve ser portanto um orgulho para Portugal.

A importância económica de Cabo-Verde pode ser diminuta. Mas só os laços históricos, a proximidade cultural, incluindo a língua comum, e a proximidade geográfica justificam que as duas Repúblicas aprofundem os laços de cooperação, que cada vez mais vai passar a ser parceria estratégica, porque Cabo-Verde também já tem muito a dar a Portugal.

Não podia terminar sem antes referir que foi com gosto que ouvi o Dr. Basílio Horta, Presidente da Agência de Promoção de Investimentos de Portugal numa entrevista na RTP Àfrica quando confrontado com a questão se justificava uma tão grande comitiva para Cabo-Verde ele respondeu mais ou menos isso: os investimentos não podem ser avaliados só em termos quantitativos mas também em termos qualitativos. Consideramos que investir em Cabo-Verde é um investimento na qualidade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

A autocensura, o anonimato e as máscaras na sociedade cabo-verdiana

Cabo-Verde conquistou a sua independência no dia 05 de Julho de 1975. O Partido Africano da Independência de Cabo-Verde (PAICV) governou em regime de partido único de 1975 a 1990.

No dia 13 de Janeiro de 1991 realizaram-se as primeiras eleições livres e democráticas. O Movimento para a Democracia (MPD) venceu essas eleições e Governou até 2000. Em 2001 o PAICV reconquistou o poder e governa até hoje.

Volvidos pouco mais de três décadas sobre a independência o País cresceu e desenvolveu-se muito nos vários domínios mas ainda tem uma elevada taxa de desemprego e pobreza, e o Estado desempenha um papel fundamental a vários níveis.
Adquirimos o estatuto de País de Desenvolvimento Médio, mas a luta pela sobrevivência ainda é intensa. Persistem enúmeros constrangimentos à obtenção da liberdade, que vão desde a falta de recursos materiais e educacionais a impedimentos psicológicos ao sucesso.
Somos uma democracia jovem, muito jovem, com apenas 18 anos de vivência democrática. E, sendo assim, um País que ainda não conseguiu libertar-se de certos estigmas do colonialismo e do regime anterior.

Cabo-Verde é referenciado como um exemplo de democracia em África e no mundo, porque a transição em 1990 foi pacífica e exemplar e desde então, com mais ou menos turbulência realizaram-se as várias eleições, já houve alternância no Poder, e as instituições democráticas funcionam.

Não obstante, a luta política que ainda se faz em Cabo-Verde deixa muito a desejar. Em campanhas eleitorais discute-se tudo menos os projectos. Os discursos são violentos com ataques pessoais, calúnias e difamações de vária ordem. Fala-se da esposa, do esposo, da progenitora, dos filhos, das heranças e das fortunas mas não se fala do essencial que é Cabo-Verde. No Parlamento, centro do debate político em Cabo-Verde, alinha-se pelo mesmo diapasão.

Estamos a progredir e hoje estamos muito melhor do que ontem e amanhã, decerto, estaremos muito melhor do que hoje.

A sociedade cabo-verdiana no seu curto trajecto de País livre e independente é ainda marcada por esses dois acontecimentos mais importantes da sua história: a independência e a democracia, este reclamado pelos ventoinhas como obra sua, e aquele ligado indelevelmente ao PAIGC/CV.

É ,por isso, que desde que se instaurou o 13 de Janeiro como dia da Liberdade e da Democracia, todos os anos por ocasião dessa efeméride travam-se intensos debates em Cabo-Verde tendo de um lado o MPD e os seus sequazes a dizerem “ nós é que somos democratas, nós é que trouxemos a Democracia para Cabo-Verde” e do outro lado o PAICV e os seus sequazes a dizerem que o dia da Liberdade e da Democracia não devia ser o dia 13 de Janeiro, dia em que se realizaram as primeiras eleições, mas o dia em que o famoso artigo 4º da Constituição caiu pondo fim ao regime do Partido Único e dando início ao Multipartidarismo.

Como se esse debate fosse fecundo e permitisse resolver os principais desafios que o País enfrenta nos dias que correm, como a produtividade, a competitividade, o desemprego e a pobreza.

A sociedade cabo-verdiana é, portanto, uma sociedade muito partidarizada com o PAICV e o MPD a dominarem o sistema. Não surgiu a tão almejada terceira força.
Todas as forças políticas que até agora tentaram afirmar-se como terceira via estavam condenadas à nascença porque nasceram em circunstâncias especiais, através de dissidências e , por conseguinte, com objectivos de vingança e não estribados em projectos de sociedade credíveis. Acabaram por sucumbir e como “ os bons filhos à casa tornam” cada qual voltou à sua casa.
Não é de estranhar que só a UCID conseguiu sobreviver até agora, mas afirma-se cada vez mais como um Partido regional.

A terceira força é possível até porque quero crer que há cabo-verdianos que não se identificam nem com o PAICV e nem com o MPD. Esses sim, são capazes de estribados num projecto de sociedade credível proporem aos cabo-verdianos uma outra alternativa, porque não movidos por objectivos de revanche.

Dizia eu, que o sistema em Cabo-Verde é dominado pelo MPD e PAICV. Em Cabo-Verde o espaço de construção de ideias é totalmente dominado pelos políticos e pelos Partidos que os sustentam. É urgente o aparecimento de uma classe intelectual e académica com pensamento científico capaz de questionar esse pensamento eminentemente movido por interesses político-partidários.
Esperamos que a proliferação de instituições de ensino superior em Cabo-Verde promova a cultura de investigação e permita o aparecimento de uma classe intelectual capaz de contrabalançar essa hegemonia dos Partidos Políticos na construção de ideias.

Creio que fazer política em Cabo-Verde ainda comporta algum risco. Muitos à procura do primeiro emprego não manifestam as suas preferências políticas com medo de represálias. As pessoas tem receio de se manifestarem ou porque o filho está à espera de uma bolsa de estudo ou para não perderem o seu emprego. Existe ainda uma certa apetência para a vingança política. Os Jornalistas ou são censurados ou praticam a autocensura. O controlo social é muito forte tanto no sentido positivo como no sentido negativo.

Sonho que um dia Cabo-Verde há de atingir um nível de desenvolvimento económico em que o sector privado, mormente as pequenas e médias empresas, se afirmam como o motor de crescimento e o Estado deixa de ser o principal empregador; que todos sejam profissionais no exercício das suas funções; que a nossa democracia se consolide e não haja mais espaço para vinganças políticas; que a disputa política se faça com base em ideias e projectos; que o Estado se retire dos meios de comunicação social; que a liberdade de imprensa tenha como limite o respeito pelo outro; que todos possam manifestar livremente as suas preferências políticas sem medo de represálias; que se tolere a diversidade; que se promova a curtura do mérito e da excelência; que haja trabalho para todos; que os ricos se tornem cada vez mais ricos e os pobres cada vez menos pobres.

Quando eu realizar os meus sonhos estarão reunidas as condições para que não haja autocensura e para que haja menos anonimato. Não vejo o anonimato como algo a abolir.
Em relação às máscaras pode-se lamentar, mas não há nada a fazer. Tem a ver com a personalidade e o carácter e ainda com a questão da sobrevivência.

Apesar de eu ser um defensor acérrimo e apaixonado da liberdade de expressão, é preciso ser muito prudente nos dias que correm. O extraordinário desenvolvimento e a rápida disseminação das tecnologias de informação é propício á divulgação de conteúdos que podem incitar á violência e pôr em causa o equilibrio social.
Afinal, sempre “ a liberdade de um indivíduo para desferir um murro acaba onde a cara do outro começa."

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A insegurança em Cabo-verde. Pistas para reflexão

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a segurança e a insegurança em Cabo-Verde.
Cabo-Verde é ou não é um País inseguro? A meu ver, não é um País inseguro. Um País com estabilidade política, social e económica, não pode ser rotulado de País inseguro.

Não obstante, nos últimos anos surgiram fenómenos inquietantes na sociedade cabo-verdiana, como o aumento da delinquência juvenil, de actos de vandalismo, de crime organizado e altamente sofisticado.

E mesmo assim o País não está inseguro? Não está. Esses fenómenos na sua esmagadoria maioria tem acontecido na cidade da Praia. Na Cidade da Praia vive uma parte significativa de cabo-verdianos, mas Praia não é Cabo-Verde. Nem na forma, nem na intensidade e nem na abrangência territorial tais fenómenos fazem com que Cabo-Verde seja um País inseguro.
O sociólogo Émile Durhkeim disse que o crime é um fenómeno normal que caracteriza todas as sociedades, sendo que a cada tipo social corresponderá um conjunto específico de crimes, assim como uma determinada taxa de crimes.
Porém, exigem uma reflexão profunda e séria da parte de toda a sociedade, porque se não acautelados, aí sim, Praia pode tonar-se uma cidade inabitável e Cabo-Verde pode tornar-se um País inseguro. Estou confiante que não vamos chegar a esse “ponto de não retorno” até porque “Praia tem Solução”.

Propunha que se criasse uma equipa multidisciplinar de cientistas sociais e humanos, a sociologia, a economia, a demografia e a geografia entre outros, e se fizesse um estudo de grande fôlego sobre as causas desses fenómenos sociais que vão assentando arraiais na sociedade cabo-verdiana. Só assim podemos actuar combatendo o mal pela raíz.

A curto prazo aceita-se que se reforce o policiamento das ruas, com todas as polícias que forem necessárias para garantir a segurança pública para dar combate ao mal que já é realidade no País. E a longo prazo? Exige-se que Sua Excia o Senhor Ministro da Administração Interna em parceria com os seus pares do Governo, porque assunto transversal, apresentem medidas de maior alcance.

A meu ver, em Cabo-Verde as coisas vão acontecendo a um ritmo mais acelerado do que a capacidade do Estado em dar resposta. Tomando por empréstimo as palavras de Thomas Malthus eu diria que a capacidade do Estado em dar resposta tem crescido em progressão aritmética (1,2,3,4,5…) e os desafios tem crescido em progressão geométrica (1,2,4,8,16,32…).
Uma explosão da população estudantil e inexistência de escolas de formação técnico-profissional e de ensino superior capaz de absorver milhares de jovens que saem do sistema e ficam sem alternativas; um mercado de trabalho com um grande excendente de oferta de trabalho, grande parte inqualificada, e grande défice de procura de trabalho, e por isso com uma alta taxa de desemprego; a existência de um sistema de atribuição de bolsas de estudo que além de escasso é altamente injusta, favorecendo quem tem “Padrinho” e muitas vezes quem mais pode.

Cabo-Verde é um País pobre, sem recursos, que ao longo desses pouco mais de 30 anos de independência não produziu muita riqueza, mas produziu um bom número de ricos, com muitas fortunas de origem duvidosa.
Parece evidente que o tráfico de droga e a criminalidade associada é a grande ameaça de Cabo-Verde. É esse o fenómeno que se não fôr combatido pode apodrecer a nossa sociedade e transformar Cabo-Verde num País altamente inseguro.

O tráfico de droga provoca distorções na economia, instrumentaliza a pobreza, tem efeitos colaterais terríveis como o consumo de droga com efeitos nefastos para a saúde pública, e o aumento da criminalidade organizada, além de se afirmar como um forte concorrente ao Poder Político pondo em causa os alicerces de um Estado de Direito Democrático.

A pobreza faz aumentar a insegurança? Creio que não. Ontem Cabo-Verde era muito mais pobre do que é hoje e hoje Cabo-Verde é muito mais inseguro do que era ontem.

Contudo, um sistema que não consegue combater a pobreza, que privilegia sempre as mesmas pessoas, que favorece a perpetuação da pobreza e a agudização das desigualdades sociais e a exclusão social pode aumentar a insegurança. Em Cabo-Verde, toda a gente conhece toda a gente, a pobreza e a riqueza vivem lado a lado e o controlo social tanto no sentido positivo como no sentido negativo é muito forte. Se o sistema se implodir é um Deus nos acuda.

A insegurança é consequência do desenvolvimento? Este argumento não é plausível. Os países mais desenvolvidos do mundo, com os mais altos padrões de vida, como os países nórdicos, não são países inseguros.

O repatriados são os grandes promotores da insegurança que se vive no País? A impressão vai no sentido de que muitos repatriados, principalmente dos Estados Unidos da América (EUA), estão envolvidos em actos de vandalismo, de delinquência e de grande crime que vão acontecendo em Cabo-Verde. Mas também parece evidente que são instrumentalizados por certos sectores da criminalidade em Cabo-Verde. Exige-se um acompanhamento mais rigoroso por parte das autoridades competentes desses cidadãos que são repatriados para Cabo-verde.

Um americano de descendência cabo-verdiana que nasceu nos EUA, que viveu nos EUA, que se fez homem de acordo com os valores e as leis da sociedade americana, que se calhar nunca ouviu falar de Cabo-Verde, e de repente é repatriado para Cabo-Verde é um ser humano que num ápice se sente fora do seu habitat natural.

Então uma pergunta se impõe: é justo que os EUA só com base na descendência repatriem um cidadão que eles criaram de acordo com as suas leis e os seus valores? O que devemos pensar e esperar de um cidadão que a maior potência mundial não sabendo o que fazer com ele decide repatriá-lo para a terra dos seus pais?

Como eles (os EUA) são ricos deviam ajudar-nos a criar as condições de acompanhamento e porque não de reinserção desses cidadãos na sociedade cabo-verdiana. Convêm dizer que existem casos de sucesso de reinserção de repatriados na sociedade cabo-verdiana.

Cabo-Verde é um País aberto ao mundo que elegeu o turismo como motor de crescimento. Muito cedo começamos a sair de Cabo-Verde á procura de melhores condições de vida. Hoje somos também um País de imigração e para sermos coerentes devemos abrir as nossas portas para todos aqueles que queiram visitar-nos e viver connosco. Contudo, exige-se um controlo mais rigoroso das nossas fronteiras. Ninguém deve entrar e sair de Cabo-Verde sem passar por um controlo rigoroso.
A família,quiçá, a instituição mais importante de qualquer sociedade, parece estar em crise em Cabo-Verde. Uma criança que nasce no seio de uma família equilibrada e coesa tem todas as condições para ser ser uma plantinha que cresca, viceje e dê bons frutos.
A gravidez precoce também é outro problema. Uma criança não tem condições de educar adequadamente uma outra criança. O número de crianças que não são registadas pelos pais é uma calamidade em Cabo- Verde.

Em nome da modernidade e da liberdade tem se permitido muitas coisas. Um Pai moderno é um Pai que permite que o seu filho desde de tenra idade comece a dormir fora de casa e a frequentar lugares não aconselháveis para crianças. Coisas impensáveis outrora.

Os locais de vendas de bebidas alcoólicas e de diversão nocturna não tem horas de abrir e nem de fechar em Cabo-Verde.
Eu acho que devemos ser um País moderno e aberto ao mundo. Mas não devemos abdicar dos valores sob os quais se estruturaram a sociedade cabo-verdiana. Valores do trabalho, do sacrifício, do respeito mútuo, da família entre outros… Como dizia o filósofo alemão Jurgen Habermas “ o desenvolvimento dá-se no ponto de confluência entre a tradição e a modernidade”.

A autoridade do Estado tem de se manifestar quando é exigido. A lei que proíbe a entrada e permanência de menores de 18 anos em determinados lugares nunca foi posta em prática e nunca nenhum incumpridor foi penalizado. Não devemos permitir que se instale na sociedade cabo-verdiana a ideia de que o crime compensa.

Sou adepto de um Estado forte quando se trata de defender a liberdade e garantias dos cidadãos. Mas também aceito a restrição da liberdade em nome da segurança colectiva. Quero crer que é preciso uma grande reforma das leis em Cabo-Verde no sentido de adaptá-las aos tempos que correm.
Cabe a sociedade cabo-verdiana trabalhar no sentido de um Cabo-Verde seguro, onde se pode viver num ambiente de paz e tranquilidade.

Em Cabo-Verde temos todas as condições para uma grande qualidade de vida. Um território pequeno onde parece que os dias tem 48 horas e onde num dia se pode fazer tudo o que se quer.

Num mesmo dia pode-se trabalhar, passear, dançar, beber infinitos copos, viajar para uma outra ilha e voltar para o trabalho no dia seguinte. Coisas impraticáveis no mundo ocidental.

A natureza proporcionou-nos um lindo País para viver, com bom clima, e não podemos permitir que actos de vandalismo, de pequena e de grande criminalidade perturbem a nossa tranquilidade.

Mas é preciso que cada um cumpra o seu papel e se complementem uns aos outros. Os poderes públicos, as famílias, as igrejas, as empresas e cada um em particular deve assumir as suas responsabilidades. Caso contrário é um trabalho improfícuo.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A valorização da classe política cabo-verdiana

O objectivo deste texto é discorrer de forma breve sobre aquilo que deve ser feito para a valorização da classe política em Cabo-Verde. Sendo certo que um salário digno é apenas um dos ítens dessa valorização nestas linhas vamos apenas falar sobre o salário auferido pelos Políticos cabo-verdianos.

No sector privado, nas empresas que são geridas de acordo com critérios de gestão empresarial promove-se o mérito e privilegia-se a competência. São organizações viradas para os resultados que procuram a maximização do lucro e por isso promovem a excelência.

Em Cabo-verde o sector privado está a densificar-se a olhos vistos e já praticam salários competitivos. O Jovens qualificados cada vez mais optam pela iniciativa privada e a criam os seus próprios negócios. Isto é, o Estado está a deixar de ser o grande empregador . Este facto até é salutar para a Democracia. Como questionava Milton Friedman “ Pode uma nação verdadeiramente ter liberdade política quando a imprensa escrita pertence ao Estado e os trabalhadores são funcionários do Governo?”

O sector privado está a surgir como o grande concorrente do Estado no recrutamento de quadros.
Se o Estado não criar incentivos com vista á atracção de quadros, se não fôr competitivo neste sentido, não tarda na função pública só vamos ter pessoas que não conseguem encontrar emprego em lado nenhum.

Mas neste particular penso principalmente na classe política, no Presidente da República, no Primeiro Ministro, nos membros do Governo, Deputados e Autarcas, esta classe de dirigentes que lidam com a coisa pública e cujo sucesso no desempenho das suas funçoes está altamente correlacionado com o sucesso das familias, das empresas, dos bancos e da sociedade em geral.

Parece-me evidente que os Políticos ganham mal em Cabo-Verde. Pagar salários mais altos aos Políticos ajuda a valorizar a classe política e contribuir também para a diminuição da corrupção.
Os Partidos Políticos com assento Parlamentar deviam trabalhar no sentido de obter um consenso nesta matéria deixando de lado discursos demagógicos.

Uma questão impõe-se: é aceitável que o Presidente de um Instituto Público tenha um salário três ou quatro vezes superior ao salário do mais alto Magistrado da Nação ou do Primeiro Ministro? Qual deles desempenha cargo de maior responsabilidade?
A este propósito lembro-me , em Portugal , de um Direrctor Geral das Contribuições e Impostos (DGCI), pelos vistos competentíssimo e que fez um trabalho notável á frente da DGCI e que auferia um salário que rondava os 26 mil euros, quando o Primeiro Ministro recebia á volta de 7 mil euros. Esse facto gerou alguma conversa e o salário do tal Director foi substancialmente reduzido, apesar de todos reconhecerem a sua competência e o seu mérito.

Não é minha intenção pôr em causa o salário que cada um aufere. Como economista sei que estudos científicos mostram que as variáveis determinantes do salário são o nível de escolaridade, a habilidade do trabalhador e a experiência. E deve-se estar ciente que a experiência com o tempo torna-se obsoleta. Cada um deve ganhar aquilo que merece ganhar.
A meu ver é preciso bom senso nesta matéria. Não é aceitável que o Presidente da República e o Primeiro Ministro tenham um salário inferioir a 200 mil escudos cabo-verdianos e o mesmo Presidente da República e Chefe de Governo tenham subordinados que auferem um salário de mais de 500 mil escudos cabo-verdianos.

Pode-se sempre invocar o argumento de serviço público, de entrega á causa pública entre outros argumentos. Mas não é todos os dias que alguém está disposto a fazer sacrifícios pessoais e familiares para se disponibilizar ao serviço Público se para tal não tiver incentivos que o justificam.
A meu ver, as melhores cabeças é que devem governar o País. Sem uma governação responsável e competente e sem uma classe dirigente com visão nenhum País vai a lado nenhum.